Darwin AI · · 504 words · 2 min
Os únicos fossos de IA na América Latina são dados locais e regulação
Investidores não param de perguntar sobre o fosso das aplicações de IA. Construí isso hoje, o que impede alguém de construir a mesma coisa amanhã? Na prática, são duas camadas da mesma pergunta:
- Dentro da nossa região (América Latina), o mercado vai se atomizar ou se consolidar?
- Se ele se consolidar, os vencedores dos EUA vão eventualmente vir engolir os locais?
Sobre a primeira pergunta: acho que o mercado vai se consolidar em torno de alguns poucos vencedores regionais por categoria, do mesmo jeito que o SaaS fez entre 2000 e 2020. As dinâmicas de distribuição são pesadas. As dinâmicas de dados são ainda mais pesadas. Num produto tipo CRM ou software operacional, mais dados → modelos melhores → menos alucinações → melhores resultados para o cliente → mais dados. Esse flywheel existe para IA ainda mais do que existia para o SaaS tradicional. Seu trabalho, se você está construindo, é ser um dos poucos vencedores regionais no seu vertical.
Sobre a segunda pergunta, se os vencedores dos EUA vão engolir os players regionais, é aí que entra a regulação.
Olha o petróleo. Olha as telecom. Os dois começaram como commodities que ninguém se importava regionalmente. Depois se tornaram infraestrutura. Uma vez que uma indústria se torna infraestrutura, todo governo quer controle. Wenceslao Casares contou uma história sobre ir a uma conferência nos anos 1990 e dizer “se eu desconectar a internet agora, nada muda.” Ele estava certo na época. Tenta dizer isso hoje.
A IA está indo pelo mesmo caminho. Hoje, se todos os modelos do mundo saírem do ar, só alguns fluxos de trabalho quebram: desenvolvedores, atendimento ao cliente, alguns outros. Em dez ou vinte anos, todo processo de colarinho branco e boa parte dos de colarinho azul vão rodar sobre essa infraestrutura. Nesse ponto, todo governo na América Latina vai perguntar: onde estão os chips? Onde essas decisões realmente rodam? Estão aqui, ou estão na Virgínia?
Essa pergunta força regulação. Data centers locais. Computação local. Modelos locais. E a regulação compra tempo para as empresas regionais. O fundo brasileiro Atlantico chamou esse padrão de “Latam does it best”: mesma onda, resultados locais melhores, porque o atrito regulatório e de distribuição deixa os players locais se consolidarem antes que os players dos EUA consigam passar por cima deles.
A Mistral é a versão europeia dessa tese. Os modelos deles não são os melhores do mundo hoje, mas conforme a capacidade dos modelos se torna commodity, “bom o suficiente + local + soberano” ganha uma parcela relevante dos clientes.
A mesma lógica diz: se você está construindo uma empresa de aplicações de IA na América Latina, eventualmente você vai querer seu próprio modelo, ajustado para seus casos de uso específicos, rodando em infraestrutura local. Hoje essa é uma aposta ruim. Em três a cinco anos é uma aposta óbvia. A Intercom já está lá no atendimento ao cliente.
Então os fossos nessa região são: seus dados, sua distribuição e a regulação que vem vindo, queira você ou não. Planeje para eles.